As manipulações nas redes sociais, os perigos da internet e os ataques à democracia

David Runciman, no livro “Como a democracia chega ao fim”, diz: “toda vez que entramos na internet em busca de novas informações para nosso uso, acabamos fornecendo novas informações sobre quem somos a todo tipo de parte interessada. Primariamente, isso nos afeta como consumidores. O histórico das nossas buscas dá aos fornecedores a informação de que precisam para direcionar seus produtos a nós. Pesquisar é ser pesquisado. Procurar vantagem competitiva como consumidor individual é revelar seus segredos”.

E existe um equivalente político. O volume de informação disponível online torna muito mais fácil para os eleitores escolher suas fontes de notícias. É fácil imaginar que isso seja a democracia em ação — ficar de olho! No entanto, e se o nosso gosto por certos tipos de notícia revelar aos outros as nossas preferências, e buscar por elas sirva simplesmente para revelar nossas inclinações? Nosso desejo de nos mantermos informados se transforma num meio de acompanharem nossos rastros. E torna possível ajustar as notícias de modo a garantir que jamais descobriremos nada de novo.

O medo da difusão de fake news reflete essa crescente ansiedade — como saber se a nossa busca de informações não irá se converter numa oportunidade para ainda mais manipulação? Uma operação sofisticada de notícias políticas pode transformar as eleições em uma versão do algoritmo comportamental: só nos é mostrado o que já sabem que estamos dispostos a comprar.

Uma empresa misteriosa chamada Cambridge Analytica, fundada por alguns destacados partidários de Trump, parece ter negociado o fornecimento de informações sobre eleitores com base em suas identidades virtuais. E isso teria determinado o direcionamento de conteúdo ao feedde notícias de cada usuário. É difícil saber se a ação fez alguma diferença. Mas a margem da vitória de Trump foi suficientemente estreita — apenas dezenas de milhares de votos em alguns estados-chave — para sugerir que pode ter feito.

Enquanto isso, o Kremlin redescobriu seu apetite por bombardear os eleitorados ocidentais com desinformações, com base numa extensa coleta de dados. No Twitter, programas-robô (bots) que simulam participar do debate sobre a democracia estão sendo programados para tornar esse debate impossível, transformando qualquer discussão política numa gritaria sem fim. Esses programas, que imitam muito mal a inteligência humana, podem ainda assim simular muito bem o comportamento de eleitores enfurecidos. Só precisam fazer muito barulho.

Sem dúvida, são muitos os riscos para a democracia nesse caso. Mas por enquanto podem estar sendo exagerados. A micromanipulação do eleitorado é certamente mais difícil do que parece— e muito do que a Cambridge Analytica vende não passa de conversa fiada. Temos uma tendência a superestimar a facilidade com que gente mal-intencionada consegue resultados monstruosamente complexos. Manipular os resultados de uma eleição sempre deu muito trabalho.

“Muitos exemplos de fake newstêm pouco a ver com alguma conspiração contra a democracia. Não passam de oportunismo, traço exuberante na internet. Várias das notícias falsas mais compartilhadas no Facebook durante a eleição presidencial de 2016 foram produzidas por um grupo de hackers adolescentes sediados na Macedônia (“O papa apoia Trump!” foi uma das mais populares). Eles não eram pagos pelo Kremlin.

A imagem mental de espectadores e atores dominantes das concepções modernas de democracia é humanística demais para a era digital. Esses sistemas de coleta de dados não passam de máquinas, e as máquinas não observam o mundo como os seres humanos — limitam-se a acumular informações.

“A ideia da democracia como espetáculo teatral foi suplantada pela ideia da democracia como publicidade. Primeiro o rádio e depois a televisão mudaram os termos da metáfora. Já a ideia subjacente não mudou muito. Eles produzem política; nós consumimos”.

As eleições são a prova final de qual produto vende mais, e fortunas foram ganhas e perdidas prestando o serviço de ajudar os políticos a transitar nesse mercado. Empresas como a Cambridge Analytica estão fazendo algo muito diferente disso? Em certo sentido, não: esta é apenas a versão mais recente do concurso permanente para ver quem doura a pílula com mais eficiência. Noutro sentido, porém, a reviravolta foi fundamental. As técnicas de venda política no século XX obedeciam a um ritmo bem claro. A finalidade era sempre fechar o negócio no momento da eleição seguinte.

Leia mais no https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2019/02/01/manipulacao-eleitoral-por-meio-da-rede-social/#more-56826

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About Francisco Castro

Economista, especialista em finanças públicas e mestre em economia.
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